Neste mundo os homens são julgados pela habilidade com que fazem as
coisas.
São avaliados de acordo com a distância que cobriram na
escalada do monte da realização. No s
opé
jaz o fracasso; no topo o sucesso completo; e entre esses dois extremos
a maioria dos
homens civilizados sua e labuta, da juventude à velhice.
Alguns desistem e escorregam para o sopé, e se tornam ocupantes da
fileira do Raspa-Chão. Ali, perdida a ambição e rota a vontade,
subsistem graças a empréstimos, até a natureza executar-lhe a hipoteca e
a morte os levar.
No alto estão os poucos que, por uma combinação de talento, árduo
trabalho e boa sorte, conseguem chegar ao pico, e ao luxo, fama e poder
que ali se encontram. Mas nisso tudo não há felicidade. O esforço para
ter sucesso exerce muita pressão sobre os nervos. A excessiva
preocupação com a luta pela conquista aperta a mente, endurece o coração
e veda mil visões fulgurantes que poderiam ser desfrutadas se tão
somente houvesse vagar por notá-las.
O homem que chega ao pináculo raramente é feliz por muito tempo. Logo é
devorado por temores de que pode escorregar uma estaca abaixo e ser
forçado a dar seu lugar a outro. Acham-se exemplos disto no modo febril
como o artista observa a classificação do seu valor, e como o político
examina as pesquisas de sua popularidade.
Faça-se saber a um magistrado eleito que um levantamento de dados mostra
que ele é dois por cento menos popular do que antes, e ele começa a suar
como um homem a caminho da prisão. O jogador de futebol vive por médias
de rendimento em campo, o homem de negócios por seu gráfico ascendente,
e o concertista pelo medidor de seus aplausos. Não é incomum suceder que
o lutador desafiante no ringue chore abertamente por não conseguir
nocautear o campeão. Ser o segundo colocado o deixa completamente
desconsolado; tem de ser o primeiro para ser feliz.
Esta mania de sucesso seria uma boa coisa, caso fosse deslocado para
cumprimento do propósito de Deus. Mas o pecado retorceu este impulso e
fez dele uma cobiça egoística pelo primeiro lugar e pelas honras das
primeiras posições. O mundo inteiro dos homens é arrastado por esta
cobiça, como por uma correnteza feroz, e não há escape.
Quando vemos a Cristo entramos num mundo diferente. O Novo Testamento
nos apresenta uma filosofia espiritual infinitamente mais elevada do que
a que motiva o mundo, e inteiramente contrária a ela. Conforme o ensino
de Cristo, os humildes de espírito são bem-aventurados; os mansos herdam
a terra; os primeiros são os últimos, e os últimos são os primeiros; o
maior homem é aquele que serve melhor os outros; e o que perde tudo é
por fim possuirá tudo; o homem do mundo, coroado de êxito, verá os
tesouros que acumulou serem varridos pela tempestade do juízo; o mendigo
justo vai para a coroação eterna, enquanto o rico soberbo segue para a
rejeição eterna.
Jesus morreu em aparente fracasso, desacreditado pelos líderes
religiosos, rejeitado pela sociedade e abandonado por seus amigos. O
homem que o mandou para a cruz foi o estadista de sucesso cuja mão o
mercenário político beijara. Coube a ressurreição demonstrar quanto
Jesus havia triunfado e quão tragicamente o governador tinha fracassado.
Contudo, a impressão que se tem hoje é que os cristãos não aprenderam
nada. Continuamos vendo os homens julgando segundo critérios humanos!
Quanto trabalho religioso feito com o ativismo por motivações erradas!
Quantas horas de orações vãs são gastas para pedir a Deus que abençoe
projetos para glorificação de homens! Quanto dinheiro é gasto para
promoção de exibições carnais!
O cristão verdadeiro deve fugir disto tudo e examinar lá no fundo seus
motivos íntimos. Ninguém merece sucesso enquanto não estiver disposto a
fracassar. Ninguém é digno de sucesso em atividades cristãs enquanto não
quiser que a honra da vitória vá para outrem, se esta for a vontade de
Deus.
Deus talvez permita que o seu servo tenha êxito depois de tê-lo
disciplinado, a tal ponto que ele não precise vencer para ser feliz. O
homem a quem o sucesso exalta e o fracasso abate é carnal ainda. Na
melhor das hipóteses, o fruto que der terá bicho.
Deus permitirá o sucesso a seu servo quando este aprender que o sucesso
não o torna mais caro a Deus. Não podemos comprar o favor de Deus com
grandes reuniões ou apresentando conversos ou fazendo obras embaladas
por esforço humano. Todas estas coisas podem ser realizadas sem auxílio
do Espírito Santo. Uma boa personalidade e um penetrante conhecimento da
natureza humana é tudo que qualquer pessoa precisa para ser um sucesso
nos círculos religiosos hoje em dia.
A nossa honra está em sermos precisamente o que Jesus foi e é. Ser
aceito pelo que o aceitam, rejeitado pelos que o rejeitam, amado pelos
que o amam e odiado pelos que o odeiam – que maior glória poderia advir
alguém?
Podemos dispor-nos a seguir a Cristo rumo ao fracasso. A fé se arrisca a
falhar. A ressurreição e o juízo demonstrarão perante os mundos todos,
quem ganhou e quem perdeu. Podemos esperar.
